A PIPA E O REINO



Por Bruno Tebaldi


Um grupo de garotos corre pela rua. Seus olhos expressam desejo,
determinação, cada passada parece decisiva como se estivessem em uma
competição onde apenas um receberá os louros da vitória.
Uns caem, mas antes mesmo de tocar o chão já estão de pé; pernas cortadas,
braços arranhados e um semblante de alegria que contrasta com a dor que
certamente sentem (ou não percebem que sentem) me fazem seguir com o
olhar o alvo a ser alcançado.
Ao olhar percebo um objeto deslizando pelo ar lentamente a uma distância
considerável, mas os meninos não estão interessados em medir a distância,
pensar no calor de quase quarenta graus na sombra ou se correr mais alguns
passos significará mais cortes ou arranhões. Tudo valerá a pena para alcançar
a graça que vem deslizando pelos ares.
Fico pensando nas câimbras, no cansaço, no corpo dizendo “pára, não
está dando mais pra continuar”, na boca seca, a dor nos pés descalços, nas
cotoveladas; “O reino de Deus é obtido à força”, penso de súbito, mas logo
volto a me concentrar na desesperada corrida pelo valioso prêmio e chego a
correr na intenção de não perder o desfecho dessa saga épica.
De repente todos param. Seus olhos voltados para cima esperam com um
anseio de séculos por algo que percebo muito bem o que é.
Todos se preparam, sorriso nos lábios secos drenados pelo calor e esforço,
corpos que são a mais pura expressão do cansaço e dor, uma vontade que
excede tudo, dificuldades, empecilhos, barreiras, nada será capaz de fazê-los
desistir, principalmente agora que estão tão perto de seus objetivos.
Quando a pipa finalmente chega ao alcance do pequeno grupo todos se
batem, empurram, uns riem, outros gritam.
Todos estão certos de duas coisas: eles precisaram de muita força para
correr e suportar a dura jornada, mas agora precisam de uma precisão
quase cirúrgica para não danificar este objeto quase sagrado, pois isto seria
praticamente uma blasfêmia condenável por todos os outros.
Um garoto pula… alcança a tão sonhada glória e os outros param
imediatamente; não há mais competição, apenas frustração e respeito pelo
vencedor. Todos olham admirando uma bela pipa colorida com uma rabióla
quilométrica e linda (a mais bela já vista).
Todos voltam alegres, mancando e comentando como foi difícil chegar até
lá; uns comparam esta com experiências anteriores, para outros foi o batismo
de fogo, a sensação de lutar por algo que se deseja e dar tudo que tem para
alcançá-lo “O reino dos céus é como um tesouro escondido em um campo que
um homem achou e escondeu; e pelo seu gozo, vai, vende tudo que tem e
compra aquele campo”.
Ao ver toda essa batalha, reparo que as pessoas que passam olham com
estranheza tudo que aconteceu (“como podem gastar tanto tempo e energia
por algo tão inútil como uma pipa?”, devem pensar).
Se interrogassem um dos meninos, talvez, com o corpo marcado e cansado
e sem o devido prêmio, ele diria: “Faço porque é legal” ou “Você viu como era

bonita aquela pipa” ou ainda “O prazer da corrida já me basta”.
Mas se perguntassem para o grande vencedor ele certamente diria: “Olhe para
ela. Eu fui o único capaz de alcançar o que muitos tentaram; vou guardar esta
aqui, pois nunca vi uma pipa tão linda como esta”.
Depois que tudo passa e o mundo volta para sua normalidade cotidiana, me
pergunto: O quanto nos dedicamos a perseguir o nosso objetivo de receber
como herança o reino de Deus?
Quando o autor do livro de Hebreus diz que ainda não resistimos até ao
sangue, paro para comparar minha vida cristã com a cena que acabo de
vivenciar e percebo que falta uma coisa em mim que sobra em pessoas
realmente determinadas: o total desapego a tudo que possa impedi-los de
alcançar seus objetivos.
Não importa o quanto seja doloroso o caminho, do que será necessário abrir
mão, quantas vezes esse mesmo processo terá de repetir, que tipo de pessoas
estarão nos rodeando no momento ou se a estrutura construída ainda não é
suficientemente forte para concluir este processo, a meta será sempre a de
seguir em frente, nunca julgando ter alcançado o alvo, mas seguir em frente
esquecendo-se das coisas que foram deixadas para trás e avançando para as
que estão adiante, em direção do verdadeiro alvo: Cristo Jesus, pois não é o
processo que realmente conta e sim o alcance deste prêmio.
Muitas vezes questiono Deus em seus métodos, reclamando e discordando
da maneira como sou tratado em seus desígnios misteriosos, mas a resposta é
sempre a mesma:
“Minha graça te
basta, deixa que eu seu bem o que faço”.
Às vezes achamos que sofremos além da conta e pedimos que Deus alivie o
peso da cruz para que possamos caminhar com mais facilidade e esquecemos
que a cruz que carregamos é apenas a nossa.
E a que Ele carregou?
A cruz de Jesus não era dele, pois não havia pecado que pesasse sobre o
filho de Deus.
Então de quem era essa cruz?
Minha, sua, dos que estão lendo este texto e talvez não creiam nestas
palavras e principalmente dos que crêem.
A cruz de Cristo, seu sofrimento, as marcas do chicote, a humilhação, a coroa
de espinhos, os cravos, a indiferença, a rejeição e a descrença (e o julgamento
é este: A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas que a luz,
porque suas obras eram más “Jo 3:19”).
Cristo, apesar das muitas perseguições e tribulações pegou sua pipa ao
ressuscitar e ter seu nome exaltado nos céus na terra e debaixo da terra por
consumar a obra que seu pai lhe dera.
E nós?
Até onde estamos dispostos a ir? O quanto resistiremos? Será que o amor que
Nosso Senhor Jesus sente e expressa diariamente por nós mora em nosso
coração a ponto de nos fazer dar tudo de nós por este que se deu de graça
para nos salvar?
O Senhor diz, por meio do profeta Isaías, o seguinte: “Eis que te purifiquei,
mas não como a prata; provei-te na fornalha da aflição”.
Será que não terá valido a pena todo o sacrifício passado por nós nesta terra
para alcançarmos a verdadeira pátria celestial?
Até quando vamos reclamar da nossa sorte e exigir de Deus aquilo que

queremos em vez daquilo que Ele quer?
Nós ainda não resistimos até ao sangue.
Só saberemos que estamos prontos para avinda do reino de Deus para dentro
de nós quando estivermos dispostos como esses meninos; dispostos a correr
até a exaustão, lutar com todas as forças e dar mais um pouquinho além,
combater o bom combate e guardar a fé de que Deus tem algo tão maior para
nós que nenhum sofrimento, humilhação, tristeza ou lá o que seja será grande
o suficiente para nos desanimar de chegar ao fim desta estrada e muito menos
de nos desviar para outros caminhos.
Esses meninos certamente correrão atrás de outras pipas, uns vão pegar
sua primeira, outros já perderam a conta de quantas já pegaram, mas duas
coisas são certas: Cada derrota será um motivo para se preparar melhor para
a próxima batalha, mas cada vitória será o impulso para seguir em frente, cada
cicatriz deixada será a lembrança de que Deus lutou ao nosso lado e nos deu
a honra de vermos seu poder manifesto em nós, cada momento de cansaço
será para dizer que estamos no caminho certo a seguir (Se o mundo vos odeia,
sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o
mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos
escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia “João 15: 18-19”).
Se está difícil, se as pessoas nos perseguem e nos odeiam, se somos
humilhados e escarnecidos por nossa fé na vinda de Cristo, se estamos
sangrando a ponto de ver a morte bem de perto, não há dúvidas de que o
caminho é realmente este que seguimos e que no fim não haverá tristeza, nem
rancores ou ódio, não haverá lamentações pelo que passou, aquele “e se…”
não existirá em nossos corações, pois teremos alcançado, em Cristo a nossa
graça que todos os dias Deus, nosso pai derrama sobre o mundo e que desce
deslizando pelos ares como a mais bela das pipas.

O Reino e a Pipa
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